Garoa e tempestade, conto de Agnes Carvalho

chuva-agnes

Outro dia peguei-o observando a janela. Seu olhar não estava tão distante a ponto que não pudesse refletir para mim a dança da chuva. Aquela era a minha janela preferida. Lembro-me quanto me debrucei nela pela primeira vez, há quase vinte anos.

Há quase vinte anos, estávamos em junho, e caía uma garoa fina lá fora. O restaurante, com seus estofados antigos e com cheiro de mofo, não era muito bom, muito menos a comida, mas quase não notamos.

“Elas dizem muito sobre você”, comentei, enquanto acariciava levemente seu rosto pela primeira vez. Sua pele era macia, embora tivesse percebido certa rigidez inicial ao sentir o meu toque. Nada comentei.

“Elas quem?”, perguntou, curioso, ao mesmo tempo em que tirou minha mão do seu rosto e a acariciou, carinhoso.

“Ninguém. Esquece”, desconversei, sorrindo. Não precisava confessar tão abertamente o meu fetiche por olhos. Isso não tinha importância. Importante era que aqueles olhos fossem sempre para mim a vitrine de suas emoções.

“Acho que estou um pouco saudosa hoje, meu amor”, disse, tocando levemente seu ombro nu. Sentando ali, imóvel, no parapeito da janela, ele era personificação dos meus sonhos de adolescente; porém, a fase em que eu me contentava apenas com sonhos platônicos já passara há muito, não tinha mais tempo para jogos. Com efeito, a minha fala o fez despertar de seu transe. Seus olhos me encararam com ternura.

“Meu bem, sente-se aqui! Veja que beleza de chuva…” Então, puxou-me pela cintura, conduzindo-me para seu colo. Enfim, depois da seca, estávamos sendo regados outra vez.

Contra tudo, só saímos do restaurante quase à uma da manhã. Esperamos em vão a chuva passar, até percebermos que os planos dela não eram os mesmos que os nossos. Contamos até dez e corremos pelas ruas escuras de Santiago de Compostela. Naqueles meses, morávamos na Espanha. Eu, intercambista. Ele, biomédico pesquisador. Corremos feitos bobos pelas ruas históricas e estreitas daquele cantinho da Galícia.

*

“Sabe o que eu mais gosto quando fazemos as pazes?”, ele me perguntou, com a mão na minha barriga e respiração lenta.

“De correr na chuva de mãos dadas?”

Na casa vizinha, uma música começou a tocar. Ouvíamos em volume baixíssimo, mas ouvíamos. Pela linha de riso que os lábios deles formaram, reconheci: Mercedes Sosa. A única que estava com ele há mais tempo do que eu.

Pero no cambia mi amor
por mas lejos que me encuentre
ni el recuerdo ni el dolor
de mi pueblo y de mi gente

“Se todos os vizinhos tivessem bom gosto como o Juan, todas as brigas de condôminos seriam apaziguadas. Mas não, não é correr na chuva, meu bem. Quer dizer, é sempre bom correr na chuva contigo” – disse, ao mesmo tempo em que me puxou para dançar. “Gosto da sensação de termos fechado janelas que não nos levam a lugar nenhum.”

Permanecemos em pé, abraçados, por um longo período, mesmo depois que a música acabou.

*

“Gosto de poder abrir meus olhos e te ver ao meu lado”.

Foi a sua primeira fala romântica dirigida a mim, quando despertamos juntos pela primeira vez. Do lado oposto da janela, caía um aguaceiro torrencial. Era então agosto, e as chuvas típicas da região denunciavam o fim do verão. Logo viria o inverno, e aquele quadro se tornaria mais frequente. A melhor estação da minha vida.

Passei a viver mais no seu apartamento do que no meu. Carolina e Louise, minhas companheiras de piso, costumavam ameaçar alugar meu quarto, já que eu nunca estava em casa. Não ligava. Naquele tempo, só pensava naqueles olhos inebriantes de beijos leves e infinitos. Através deles, só via chuva e promessa de vida.

“Eu o amo”, confidenciei à Carolina. Tinha que contar para alguém.

“Isso é loucura”, bradou. “Em três meses você terá de voltar para o Brasil e ele continuará aqui, com suas pesquisas. Em que mundo vocês acham que isso dará certo?”
               
Sorri ao ouvi-lo dizer aquilo. Sentia exatamente a mesma coisa. Nos últimos dias de julho, desde que chegara de uma recém-visita aos meus pais, brigávamos todos os dias, como duas crianças teimosas. Essas brigas se intensificaram no mês seguinte, e não foi a primeira vez que pensei em terminar com tudo aquilo. Voltar para o Brasil mais uma vez.
             
 
*

Em que mundo aquilo daria certo? Carolina e seu bom senso tinham razão. Em dezembro, retornei ao Brasil. Aquele relacionamento era impossível. A princípio, tudo me lembrava ele. Em todos os lugares, via o olhar cabisbaixo que me levara ao aeroporto. Estava ficando louca.

Falávamo-nos com frequência por telefone, mas era caro e ele não tinha linha em casa. Também me enviava cartas. Através dela, soube que ele tinha aprendido a cozinhar tortillas – iria um dia fazer para mim -, que as chuvas incessantes continuavam e que o espaço vazio na sua cama incomodava-o cada vez mais.
               
Não respondi nenhuma carta. Não tinha estômago. Já era difícil falar com ele no telefone, imagina registrar tudo aquilo que sentia? Estava seca, tal como o tempo em João Pessoa. No Natal daquele ano, recebi através do carteiro uma caixa de chocolate belga com um cartão que dizia, entre outras palavras, como tudo lá lembrava a mim para ele, e sobre como ele sentia a minha falta.

Comi o chocolate com a mesma avidez que rasguei o cartão em pedacinhos. Se o modo como nos relacionávamos naquele momento fosse chuva, eu era a garoa e ele, a tempestade.

*

Logo após o ano novo, decidi que era hora de me libertar de algumas amarras. Me permiti sair, beber com amigos, acompanhada de uma sensação de liberdade que não sentia há meses.

*

Conforme setembro chegava, as coisas melhoravam entre nós. Sempre fora assim. Ele ficava mais carinhoso, eu mais aberta.

“Quer um pouco de sopa de abóbora? A Ângela ontem congelou um pouco para nós.” – disse, desvencilhando-me do seu corpo.

“Você bem sabe que eu não recuso nada que a Ângela faça!”

“É, bem sei! Por isso que você não reclamou da minha ausência durante esses meses todos que passamos separados dessa vez!”, brinquei.

*

“Queria te fazer uma surpresa”, ele me disse, entre risos, quando eu abri a porta da minha casa. Era carnaval, e ele aparentemente combinara tudo com meus pais.

Pisquei duas vezes, incrédula.

“O que foi, não gostou? Não vai me dar, ao menos, um abraço?”, suas janelas me encaravam, um par de gêmeas semicerradas.

Naquele momento, entretanto, ficou claro para mim que não era a distância que estava complicando nosso relacionamento. Eu era. Já não o queria. Todo o seu carinho e cuidado, não eram pra mim. Combinavam com o meu eu galego, não com o meu eu brasileiro. Como dizer isso? Como confessar que, em todas ligações que fingi não estar em casa, a Ângela, nossa velha empregada, me acobertara? Santa Ângela. Como dizer que já tinha o carnaval todo programado com as meninas: as praias, as festas, as fantasias?

Abracei com força, como se aquele ato pudesse ser capaz de eliminar qualquer sensação negativa. Eu o amava há dois meses, havia mudado tanto? Senti calor, mas acho que era da estação.
Ele instalou-se em minha casa, e tentei continuar o que fora interrompido na Espanha. Tinha apenas dez dias para curar aquela relação.

Íamos juntos para todos os lugares. Apresentei-o à minha família, aos meus amigos. Porém, ele também começou a mudar. Já no segundo dia, estava mais calado e introspectivo. No terceiro, quase não tínhamos assunto. E no quarto, começou a ciumar de meus amigos. Os dias estavam cada vez mais áridos: a discussões eram cada vez mais agressivas e calorosas, e os motivos, os mais tolos possíveis.

Terminamos. Um dia antes dele regressar à Espanha, trocamos acusações horrendas e decidi, em prantos, que não queria mais aquilo para mim. Ele não discordou. Saiu e não regressou mais até o momento do voo, para se despedir de meus pais.

*

Trouxe Ângela para a Espanha depois de uma de minhas temporadas no Brasil. Quando eu era ainda uma criança, ela contava todas as noites histórias de princesas que viviam em castelos europeus. Decidi que deveria ter a oportunidade de visitar seus sonhados castelos.

Costumava ir para casa todos os anos em junho, para visitar meus pais, resolver pendências no consulado e na faculdade. Demorava, em média, três meses. Era um período complicado para nós, mas diferente da primeira vez, eu sabia que iria regressar, e chegaria junto com as primeiras gotas do outono.

*

Não tive notícias dele por treze anos. Nesse intervalo, concluí a minha graduação em Geografia, namorei outros caras, saí de casa, mudei de cidade. Segui em frente. Dizem que o primeiro amor nunca esquecemos, mas o meu perdi em meio à minha bagunça.

Em 2006, fui convidada a palestrar pela faculdade que lecionava em um evento internacional em Zurique. Participava de uma mesa redonda sobre o efeito do aquecimento global nos níveis de precipitação de algumas localidades do mundo, quando percebi que era observada. Estava visivelmente mais velho, com um punhado de cabelos brancos crescendo e indícios de futuras entradas no couro cabeludo. Mesmo assim, o reconheci.

No final da programação do dia, nos reencontramos. Descobri que ele estava ali porque era um dos pesquisadores homenageados do evento. Falei um pouco sobre mim, e perguntei como estava minha querida Espanha. Ele me convidou para um café fora do hotel. Aceitei, sabendo que não conseguiria dizer não. Àquela altura, as lembranças de Santiago já me embalavam. Deus, o que estava acontecendo comigo?

*

Ele puxou a cadeira para que eu sentasse, e foi buscar a tigela com a sopa. Adorava a nossa cozinha: era ampla, clara, e, depois da última reforma, tinha uma claraboia. Às vezes ia ali sem motivo, só para observar o céu cinzento.

“Eu ainda posso me servir, sabia?” , protestei, observando-o de soslaio.

“Não, não pode” , disse, ao me entregar a comida. Sentou-se à minha frente, e segurou minhas mãos. As gotas de chuva que caiam sobre as telhas cerâmicas proporcionavam uma trilha sonora aconchegante para o nosso jantar. “Enquanto você estiver carregando a minha semente no ventre, será mimada em todos os momentos do dia.”

Ao chegarmos à recepção do hotel, vislumbramos o que acontecia lá fora, através das altas esquadrias de vidro. Uma chuva forte caía, amparada por raios e estrondosos trovões em intervalos de tempo regulares. Já não tinha dúvidas do que aconteceria.

Semanas depois, estava de mudança para Santiago. Meus pais não entenderam quando lhes contei de como havia me apaixonado pelo mesmo homem, e muito menos quando informei que estava de mudança definitiva para a Espanha. Era lá que dávamos certo, só lá. E somente nos meses chuvosos. Era como se água da chuva fosse capaz de purificar aquele relacionamento, renovando-o e levando consigo todas as impurezas acumuladas.

Estava grávida. Três meses. Descobrimos depois da última temporada de calorosas discussões. As temporadas de inconstâncias teriam, por fim, um término. Logo, ela chegaria para nos curar definitivamente. Ela, nossa garoa.

Agnes Carvalho em foto de seu perfil de Facebook

Agnes Carvalho em foto de seu perfil de Facebook

– Agnes Carvalho, 23, é arquiteta em Salvador e escreve sobre livros no blog Rascunhos e Borrões – http://www.rascunhoseborroes.blogspot.com.br/

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Quatorze contistas e três conselheiros

turma de terças com Adelice Souza, em 26/11

turma de terças com Adelice Souza, em 26/11

Durante as primeiras quatro aulas fizemos uma série de leituras e exercícios de estímulo à criatividade na produção de contos. Gradualmente avançamos do microconto para o conto com maior fôlego, até finalizarmos nossas atividades com um exercício de maior complexidade: a criação de um conto longo.

Todos os 18 alunos que cursaram as aulas foram convidados a trazerem um conto longo – de 5 a 10 páginas – de sua autoria na quinta aula, para compartilhar com os colegas e ouvir comentários, sugestões, tirar dúvidas, enfim. Deveriam, então, adotar ou não as sugestões da edição coletiva e enviar-me o texto por e-mail durante a semana, a fim de que um escritor convidado pudesse analisar o resultado deste trabalho no nosso sexto e último encontro.

Uma boa parte da inspiração para esse exercício foi a obra de Alice Munro, vencedora do Nobel de Literatura deste ano. Seus contos são realmente longos e imbrincados, mas os personagens centrais giram sempre em torno de um acontecimento ou um objetivo comum sutilmente estruturado.

Lemos alguns contos longos durante a oficina, de diferentes autores (J. M. Coetzee, Katherine Mansfield, Victor Mascarenhas, entre outros), mas escrever é outra história…

Embora a maioria dos alunos tenha confessado algum grau de sofrimento para executar a tarefa (e quatro tenham parado de vir à oficina mais ou menos entre o anúncio do exercício e sua execução), ao mesmo tempo a maioria trouxe narrativas interessantes, bem construídas e inventivas. Vou fazer uma pequena síntese aqui, e na postagem seguinte apresentar o conto de Agnes Carvalho, aluna da turma de sábado que finalizou uma versão de Garoa e Tempestade.

atenção plena da nossa convidada Adelice Souza / foto: katherine funke

atenção plena da nossa convidada

Na terça-feira (26/11), a escritora Adelice Souza (foto) comentou a produção dos cinco alunos de terça-feira que chegaram a esta etapa final: Tânia Streb e sua história para crianças; Marcos Jorge e sua narrativa de uma cidade feliz com fim trágico; Miguel Gonzaga e seu conto erótico-policial de 15 páginas e diferentes pontos de vista e elementos narrativos (locução de rádio, relato de autópsia etc); Andrea Machado e sua ficção científica dentro de terrário, com idas e voltas no tempo e no espaço e uma categorização social ao modo de H. G. Wells; e Maria Amábilis, que tirou da gaveta um conto escrito por ela em 1991, em que mistura astrologia, uma celebridade pop da TV brasileira e a voz de Deus.

Adelice ofereceu aos alunos alternativas de edição – desde repensar projeto literário até minuciosos detalhes de construção de personagens. Sua conversa com os alunos aconteceu das 14 às 18h, sem intervalo. Ao contrário do previsto, o atendimento ao aluno não foi individual, mas coletivo. Todos quiseram ouvir e ser ouvidos, aprendendo coletivamente com a experiência do outro.

Victor Mascarenhas, por sua vez, acompanhou a turma de sábados. Sua tarefa foi um tanto mais árdua: tinha nove contos, quase sempre bastante diferentes entre si.

Agnes Carvalho e Ricardo Stabolito Jr. trouxeram histórias de amor, mas talvez essa tenha sido a única coincidência. De um certo modo, as narrativas de Edivânia Barros e Fernanda Crescencio também tratavam de amor, embora de outras naturezas (criança/amigo mais velho, no primeiro caso, e filha/mãe, no segundo). Já Poliana Dantas construiu uma personagem bastante sensual/sexual, inspirado em diferentes tipos femininos da literatura e do universo pop.

Nana, Hugo e Agnes a todo vapor

Nana, Hugo e Agnes a todo vapor

Em outro plano temático estavam os contos de Hugo Ricardo (uma história realista de suspense, violência e denúncia social, onde cartas e narração em terceira pessoa se complementam) e Railana Medeiros (também uma denúncia social, mas com alguns elementos esotéricos e de ficção científica, a partir da cultura indígena da etnia guarani).

Um mergulho mais profundo na subjetividade pôde ser notado nos contos de Juçara Silva, que contou a história de superação de uma personagem chamada Maya, e Márcia Barretto, que partiu de conceito de Jacques Lacan (“objeto pequeno a”) para desenvolver uma narrativa em primeira pessoa, um fluxo de consciência.

Questões de verossimilhança, lógica, nexo e ritmo fizeram parte dos comentários de Victor sobre os trabalhos. Ele falou sobre como a identidade do personagem pode ser construída a partir de diálogos e ações, em vez de longas descrições adjetivadas, e de como não vale a pena se ater a fórmulas-chavão como o maniqueísmo ingênuo e o final-surpresa.

A todos os alunos também dei minhas sugestões; sou a “terceira conselheira” anunciada no título desta postagem, como era de se prever…

Os alunos de sábado também optaram por uma conversa aberta, coletiva, onde todos puderam ouvir e comentar as análises do escritor convidado. Desta vez, trabalhamos das 15 às 19h, com interrupção perto das 19h para devorarmos o delicioso bolo presenteado a nós por Juçara. Aliás, todos os sábados apreciamos fabulosos quitutes. Obrigada, Juçara, Márcia e Edivânia, por adoçarem nossas histórias.

E sigamos. Tenho impressão de que ainda lerei alguns destes “contos finais” em publicações literárias de boa qualidade; torço por isso e quero muito ver acontecer.

Quase romance, conto de Fernanda Crescencio

folha de jamelão / do site um pé de quê?

folha de jamelão / do site um pé de quê?

Janela, passarinho, comida para gatos, água para as plantas, café, jamelão e escrivaninha. As manhãs de domingo existiam para celebrar a liberdade com onze horas de sonhos, pés descalços na areia branca ou cestas de piquenique pousadas na grama. Mas, sendo ela a única figura feminina do horóscopo, criou um ritual até para os dias de folga.

Não havia o que falar às 7h45 de domingo, exceto os versinhos de amor declamado para todas as coisas vivas que cruzavam seu caminho entre o quarto e o jardim. Na volta, parava na janela da cozinha, segurava a xícara de café ignorando sua asa e estendia-se como um lençol branco no quintal, bobo e despretensioso.

Ficava assim por vinte, trinta minutos, vazia, estendida, com os cabelos ao sol, admirando o pé de jamelão. Depois sentava em frente ao computador para travar uma guerra inútil contra um homem apaixonado, ocupando-se mais com seu personagem que consigo.

“[…] diante do espelho rachado que deformava sua boca, lembrou de Capitu, dos seus olhos de ressaca, e um frio correu-lhe a espinha ao constatar a saudade que sentiu daqueles olhos. Não dos de Capitu que, embora pudesse imaginar nunca os viu de fato, mas os da doutora Laura, que levaram consigo seus pedaços mais preciosos […]”

Há dias estava presa naquele capítulo, atrasando o andamento da obra e instalando-se numa melancolia gélida e cinza. Falar dos olhos de uma pessoa amada era tão complicado quanto tentar definir sentimentos.

Olhos são sentimentos cravados no rosto, não podem ser definidos.

“[…] impiedosos, inquisidores. Olhos que puxam, que movem, que riem, que mudam de cor, que agridem e fazem chorar. Encontro de cílios, rebentação […]”

Deletava letra por letra, tomava um gole de café e tentava adjetivos, explicações não levianas. Numa foto os três gatos da casa, mirando a lente da câmera. Investigava, mas não podia; olhos de gatos são olhos de gatos: inexplicáveis.

Jonas permanecia calado, esperando colocarem-lhe palavras na boca entrecortada. Olhava-se com piedade, exibindo suas feições carregadas de doçura e tristeza, procurando suas memórias e os pedaços que aquela ressaca levou.

“[…] rebentação, olhos inconsequentes.”

Simultaneamente, as palavras saltaram das bocas.

A história parou e ficaram os dois assim, interligados pelo silêncio, imóveis, reflexivos diantes de si. Jonas a olhar para o espelho, criança, incompleto, por vezes confundindo os olhos de Capitu com os de Laura, sofrendo por duas mulheres que só existiam no papel. Ela a olhar para o verde, roxo e enquadrado pé de jamelão, estendida novamente, dona de si, estéril em sua natureza mais profunda. Dois mentirosos, confundidos em suas ficções, presos na imensidão, solitários diante de um olhar.

– Fernanda Crescencio, 26, mora em Camaçari, é atriz, bacharel em Comunicação Social e exercitou contos pela primeira vez durante a oficina. Leia outros textos dela neste blog.

E o que os alunos acharam da oficina?

“A oficina de contos foi um começo maravilhoso na minha caminhada literária. “
(Fernanda Crescencio)

“A escrita é uma arte que precisa de aprimoramento constante e, com a oficina, sinto que dei um passo à frente neste sentido.” (Ricardo Stabolito Jr.)

“Pude finalmente escrever meu primeiro conto e entender de fato o que é um conto. Descobri autores novos e histórias incríveis.” (Agnes Carvalho)

feedback de Edivânia Barros sobre a oficina

feedback de Edivânia Barros sobre a oficina

“O formato dinâmico das aulas proporcionou – tanto aos participantes iniciantes na produção do gênero, como aos mais experientes – um mergulho teórico e prático no universo dos contos.”
(Edivânia Barros)

“A oficina foi, de longe, uma das melhores experiências experiências da minha vida. Me senti à vontade para falar da minha produção e sobre a produção das outras pessoas.”
(Hugo Ricardo)

“Os textos escolhidos para leitura e discussão me motivaram bastante, pois têm autores de diversas épocas e estilos, o que proporciona muita riqueza em termos de informação e troca de idéias.”
(Márcia Barretto)

“A oficina de contos com Katherine Funke abriu as portas para que eu compreendesse mais o conto. Foram sábados bastante produtivos.”
(Poliana Dantas)

“Aprendi muitas coisas, principalmente a pôr no papel o que eu penso. Foi um super aprendizado e sentirei falta dos exercícios.”
(Railana Medeiros)

“Eu gostei de interagir com todos, aprendi muito. Depois de anos me senti estimulada a escrever.”
(Tânia Streb)

“Ouvi as dicas de Katherine, que nos convidava a ter atenção com cada palavra e os contos compartilhados com tanta generosidade por todos que ali comungavam o grande prazer de pensar, escrever, ler e escutar.”
(Andrea Machado)

“Foi marcante a experiência de participar desta oficina; a cada sábado, um novo desafio e novas construções.”
(Juçara Silva)


A todos, meu muito obrigada!

Um abraço e até a próxima,
Katherine Funke

Algumas fotos das nossas aulas

clique na imagem para ampliar

Essas fotos foram tiradas por mim, que não sou exatamente grande fotógrafa. Então perdoem os crimes de luz e sombra… Mas ficam os retratos e os registros destes nossos doze encontros, seis por turma.

De todas as aulas, só esqueci de clicar a visita de Victor Mascarenhas, na aula do dia 30 de novembro, talvez porque havia nove contos de grande complexidade em análise nesta seção de comentários dos trabalhos finais.

Os blogs dos nossos alunos

detalhe do blog de Miguel Gonzaga

detalhe do blog de Miguel Gonzaga

Anikulapo
http://wwwanikulapo.blogspot.com.br
blog autoral de Miguel Gonzaga

Aquilo que se faz
http://opesodecadalugar.blogspot.com.br
blog autoral de Fábio Freitas

Conversa de Livro
http://conversadelivro.blogspot.com.br
blog de resenhas de Ilmara Fonseca

Cultura ativista
http://culturaativista.tumblr.com
notícias culturais de Lauro de Freitas e região; contém textos de Nana Medeiros

Dea no Mundo
http://deanomundo.blogspot.com.br/
blog autoral de Andréa Mota

Excrementos
http://excrementos.tumblr.com
blog autoral Hugo Ricardo

detalhe de post do blog de Edivânia Barros

detalhe de post do blog de Edivânia Barros


Literasamba
http://literasamba.blogspot.com.br/
blog autoral de Edivânia Barros

Rascunhos e borrões
http://www.rascunhoseborroes.blogspot.com.br
blog de resenhas de Agnes Carvalho

Dez links úteis ao espírito da busca incessante

capa do site Homo Literatus

capa do site Homo Literatus

Sábado passado (30.11) tivemos nosso último encontro – foi ótimo, aliás, com a presença do espírito crítico & criativo de Victor Mascarenhas (autor do romance Xing Ling e dos livros de contos Cafeína e A insuportável família feliz), sobre o que escreverei logo mais.

O fim das aulas não quer dizer que tudo acabou. Não: tudo apenas acaba de começar. Hoje é segunda de manhã, ainda não deu oito horas mas acordei às seis e meia e às sete já estava pronta para o trabalho.

Neste espírito de busca incessante, vou começar essa semana de encerramento da nossa atividade com dez dicas de links úteis para continuarmos todos em movimento na direção de um maior entendimento w prática de contos.

1_MAIS REPERTÓRIO
Do site Homo Literatus, indico o recém-publicado artigo Contos para ler antes de morrer. Este texto foi publicado neste final de semana, de modo que acabo de conhecer o link; imprimi a postagem e são simplesmente 15 páginas de informação de qualidade. Além de alguns nomes que estudamos ou citamos na oficina, há contistas que ainda não li, mas deveria: Lygia Davis, Yukio Mishima e J. Rentes Carvalho.

2_BOAS RESENHAS
O Coletivo Amálgama publica resenhas muito bacanas de títulos da literatura contemporânea brasileira, bem como entrevistas com escritores e outros textos de igual relevância para contistas. Existem dezenas de blogs de resenhas, mas muitos são simplesmente ocupados por toneladas de escritores estrangeiros, refletindo o grande volume de literatura traduzida publicada no Brasil.

3_JORNAL RASCUNHO
Sei que é redundante para a maior parte dos alunos; mesmo assim, fica a dica do Jornal Rascunho. O site é ótimo, mas curto ainda mais a edição impressa, que você pode solicitar por assinatura e receber pelo correio. Publicado em Curitiba (PR), é um dos poucos jornais do gênero no Brasil contemporâneo que circulam nacionalmente. Não concordo com a opinião de todos os resenhistas e colunistas; alguns me deixam profundamente contrariada; mas nem sempre concordar é a chave do conhecimento…

Screen Shot 2013-12-02 at 8.52.21 AM

4_PRODUÇÃO BAIANA COM HUMOR FINO
O Purgatório – curtas diárias para escapar do Inferno reúne um excelente time de prosadores da Bahia e às vezes alguns convidados. A maioria tem humor refinado e inteligência tal para fazer com que você fique feliz em visitar um purgatório…

5 e 6_NOTÍCIAS BAIANAS EM DOSE DUPLA
Dois blogs concorrentes e ao mesmo tempo complementares: o blog de literatura do iBahia e o blog Luz sobre a escrivaninha, agora sob o comando de Mariana Paiva (jornalista e autora de Barrocas, contos, P55 Editora).

7 e 8_DOIS GRANDES BLOGS DE EDITORAS
Alguns dos escritores mais produtivos e interessantes da literatura contemporânea brasileira publicam regularmente uma coluna no blog oficial de grandes editoras. Visito ao menos uma vez por semana o blog da Companhia das Letras e o blog da CosacNaify; quase nunca me arrependo. Certamente há outros bons blogs de editoras (inclusive da minha, Solisluna), e algumas ainda publicam revistas, sobre o que falaremos a seguir.

página de Cadernos de Não-Ficção, edição #4

página de Cadernos de Não-Ficção, edição #4

9_REVISTA DA NÃO-EDITORA
Cadernos de Não-Ficção é (ou era, já que a última edição é de 2011), um dos projetos da Não-Editora, de Porto Alegre (RS). Se ainda não conhece, não deixe de baixar os PDFs e ler em casa, a qualquer hora, ou folhear online. Na edição mais recente tem entrevista com Ricardo Piglia e um panorama da literatura argentina.

10_SUPLEMENTO PERNAMBUCO
Outra publicação de respeito que reúne alguns dos melhores artigos publicados atualmente por escritores brasileiros é o Suplemento Pernambuco, feito aqui pertinho, no Recife. Às vezes gostaria de saber quando a Bahia vai começar a produzir algo do tipo: acho que não demora mais muito, não. Ou pelo menos pensar assim me acalma um pouco.

Perdendo fichas, conto de Fernanda Crescencio

Ele não queria ser grosseiro comigo, porque isso implicaria em destruir a imagem que ele pensava combinar com a minha. Mas naquele calor, aperto e bebida de graça, eu era sua platéia mais atenta, a única com ouvidos para suas lamentações cotidianas.

Pediu mais uma ficha. Já tinha tomado três cervejas, então eu disse espera. Você tá bêbado, não tá?

– Eu não fico bêbado com cerveja.

– Mas você já está me olhando diferente. Tá bêbado sim.

– Isso aqui é só uma pausa refrescante. Ah, deixa eu ser feliz.

Feliz era tudo o que eu não estava naquela festa. Gente estranha, música brega, comida ruim. Eu queria ir embora. Eu podia ir embora. Mas a verdade é que eu estava ali e fiquei. Fiquei só para controlar aquelas malditas fichas. Uma maneira ingênua de tentar protegê-lo de si.

– Me dá mais uma ficha.

– Toma. A última, porque você já está bêbado.

– Ainda tem duas no seu bolso. E pára de falar que eu tô bêbado.

Não queria dar-lhe mais nenhuma ficha, sabia o que a embriaguez poderia causar. Todo o vexame, a vitimização, a sofreguidão e o ar de superioridade, que contradição, a que se entregava.

Entregava a ficha no bar, tomava mais uns goles e me olhava daquele jeito distante. Ainda era ele com aquelas lamentações, tatuagens por todo o corpo ( tapete persa, ele dizia) e todo aquele ódio à burguesia que vinha a tona quando embriagado. Falava comigo como que em outra esfera. Era eu e ele, mas poderia ser ela.

– Ela tá te olhando, não vai lá falar?

– Eu? Falar o quê?

– Sei lá. Chama ela de lua.

– Acha mesmo que sou tão cretino a ponto de usar as mesmas palavras com duas mulheres diferentes? Você é a lua.

Pediu mais uma ficha. Não era certo, mas gostei de ouvir novamente da sua boca a coisa mais delicada que já me disse. A última, pensei. A minha mão, a dele e uma nova chance. Bebeu mais uma cerveja, cantou todas as músicas, tirou a camisa, subiu no palco e veio me dizer:

– Minha mãe, meu irmão, minha família… Não quero ser como eles. Deprimente, patético…

– Não fala assim. São eles que…
– Eu sei. Não to querendo diminuí-los, só que… Você sabe… Ah, esquece.

Esqueci. Estava bêbado e eu chateada.

– Quando você estiver sóbrio a gente conversa.

– Eu já disse que eu não tô…

– Não.

– Dane-se.

Dane-se. Foi o que eu disse ao entregar-lhe a última ficha. Na mão dele, a chance. A última. Ele pegou, bravo. Em outra esfera, o sol nasceu. Deixei-o cantando um rock para mim.

fernanda crescencio em foto de seu perfil de facebook

fernanda crescencio em foto de seu perfil de facebook

– Fernanda Crescencio, 26, é atriz e escreveu este conto durante a oficina, para um exercício proposto a partir da leitura do conto A Estrutura da Bolha de Sabão, de Lygia Fagundes Telles. Leia outros contos da moça nesta outra postagem do blog.

Dois de fevereiro, conto de Tânia Streb

Baiana System na festa de Yemanjá / foto: Filipe Cartaxo

Baiana System na festa de Yemanjá / foto: Filipe Cartaxo

Luciano veio pronto para a festa de Yemanjá, todo de branco, em paz, sentindo o axé.

E com óculos escuros. Não suportava a claridade por causa da cirurgia da miopia.

Dirigira 430 km para a primeira consulta pós-operatória e o Dia de Iemanjá. Incrível, a médica atendia neste dia tão especial em Salvador. Teria até um atestado para curtir a festa.

Antes de chegar na Av. Garibaldi, já estava num engarrafamento infernal. Mais duas quadras, se arrastando no trânsito, estaciona. Liga pra médica explicando a impossibilidade de comparecer.

Resolve ir a pé para o Rio Vermelho. Anda uns trinta metros e ouve o caminhão de lixo batendo num carro. O seu carro.

Volta, respirando fundo.

“Hoje estou zen, nada vai me tirar do sério”.

Não argumentou com o motorista que o culpava por ter estacionado mal, afastado da calçada, onde tinha um poste com uma lixeira saliente além do meio fio.

“Tenho seguro, deixa pra lá”.

Recomeçando a caminhar, uma tira da havaiana arrebenta. Segue descalço para a colônia de pesca do Rio Vermelho.

Trazia um perfume para Yemanjá.

Entra na fila das oferendas.

Começava a escurecer quando volta para a rua. No primeiro passo, leva um tropeção de alguém já bêbado. Depois vê que perdera os óculos, pendurados na gola da camiseta.

Pensa em ligar para algum amigo. Cadê o celular?

“Pô, deixei em cima do carro, no lance da batida!”

Vê na multidão uma amiga. Ela mora perto e arruma uma havaiana pra ele, número 35.

“Menos mal.”

Chegando no largo, se anima com o show do Baiana System.

É quando vê, do outro lado do palco, uma morena linda no seu vestido branco.

Ela olhava pra ele sorrindo.

Era a sua sereia.

– Tânia Streb, 62, mora em Lauro de Freitas e gosta mesmo é de escrever para crianças. Mas também produz contos para adultos e tem mostrado seu talento durante a oficina.

Cria, conto de Hugo Ricardo

“É uma menina boazinha, até”, dizia a avó. “Peguei para criar quando tinha uns cinco anos, nunca me deu trabalho. Prendada, viu? Lava dois tanques de roupa num piscar de olhos e faz um doce de goiaba que dá água na boca”, completou Dona Branca, apontando o dedo enrugado para Margarida, sua neta de criação que acabara de completar quinze anos.

Já havia oferecido a garota para três fazendeiros, mas só o último aceitou ficar com ela, prometendo levá-la para a capital e depositar quarenta reais todo o mês na conta da avó. Dona Branca não pensou duas vezes, enfiou a menina no fundo do carro e arrumou cuidadosamente uma travessa de biscoitos caseiros no banco da frente. “Esse mimo é para a senhora sua esposa. Diga que mandei lembranças. Obrigada.”

“Obrigada, com licença, obrigada, com licença”, repetia Margarida mentalmente durante o longo trajeto até a capital. Tentava memorizar as únicas palavras educadas que conhecia, mas não sabia ao certo quando usá-las.

O fazendeiro, conhecido como Ferreira, hora ou outra encarava Margarida pelo retrovisor. Seu olhar de desejo esbarrava nos olhos infantis da garota que sorria tentando parecer educada. “Você tem quantos? Dezoito né?”, Ferreira quebrou o silêncio. “Tenho quinze, senhor”, respondeu Margarida. “Mas já sangra?”, emendou o fazendeiro. Margarida calou-se, envergonhada. “Ora, menina. Te fiz uma pergunta!”, gritou. “Já, sim senhor”, a menina falou baixinho, envergonhada. “Mas que beleza!”

O homem sorriu. Margarida retribuiu o sorriso e agradeceu.

Obrigada a fazer com rapidez as tarefas do casarão e ainda dedicar parte do tempo cuidando dos filhos do patrão, Margarida nunca desejou tanto voltar no tempo. A esposa de Ferreira quase não ficava em casa, mas quando pisava na mansão era um Deus nos acuda. “Margarida, lave isso”, “Margarida, olhe por onde anda”, “Menina, você sabe quanto custou esse vestido?”, “Mas que negrinha incompetente Ferreira foi me arrumar”.

E assim Margarida adicionou uma nova palavra na sua coleção de palavras gentis: “desculpa.”

O poder da palavra desculpa podia funcionar muito bem com a Senhora Ferreira, mas com o patrão não tinha conversa. “Negrinha safada”, sussurrava o fazendeiro quando passava pela cozinha. “Margarida, venha aqui no quarto por favor”, ordenava quando sua mulher não estava em casa. E dessa vez Margarida adicionou duas novas palavras na sua coleção de palavras gentis: “por favor”. As mais duras palavras. Com o “por favor” não tinha escapatória. E se fosse um “por favor” cuspido entre os dentes de ouro do patrão, pior ainda. O “por favor” do Senhor Ferreira não admitia outras palavras senão “sim, senhor”.

hugo– conto de Hugo Ricardo Jesus Silva, 19, produzido durante a aula. Hugo venceu o concurso de minicontos da turma de sábados. Ele escreve no blog Excrementos – http://excrementos.tumblr.com/ .